IMPÉRIO DO NADA

O império do nada, do vazio ou do negacionismo se abateu como um vírus letal sobre a sociedade contemporânea. O nada é pior, muito pior, que o não. Com efeito, o não comporta uma densa carga de incerteza e inquietude, de incoformismo e indignação. Desperta para a superação dos obstáculos e a busca de alternativas. Diante de portas e fronteiras fechadas, se aguça o instinto de luta. O não predispõe à ação, e esta desencadeia reação, e assim sucessivamente. No esquema dialético de Hegel, como é notório, a negativa conduz a uma nova afirmação.

O nada, porém, é oco, vazio. Diferente de uma negativa, é negacionismo puro e simples. Não possui carga elétrica alguma: nem negativa nem positiva. Não reclama por oposição, e tampouco por adversário. Contra o quê ou contra quem desencadear a luta? O nada consiste em um abismo sem fundo, não há como apoiar os pés para um novo impulso.

A sociedade de hoje sequer é capaz de dizer não ao status quo de guerras e injustiças, simplesmente nada tem a dizer. Não há referências nem pontos sólidos para alavancar um não. Apenas cruza os braços e olha a “banda” passar. A história, de duas uma, ou se faz enquanto protagonistas, ou se sofre enquanto vítimas. Os atores atuais não parecem ser uma coisa nem outra. A indiferença é sua marca registrada.

A história passa ao lado como um trem cujo destino não se sabe e nem importa saber. O trem segue sem condutor e sem meta, ao mesmo tempo que cada indivíduo concentra-se no próprio umbigo. Passado e futuro se esfumaçam e se diluem num instante compulsivo. Permanece apenas o presente como um gigantesco parque de diversões. O carpe diem nunca chegou a extremos tão abusivamente ególatras e consumistas. Queremos tudo o que os olhos e o bolso alcançam, e o queremos de imediato, aqui e agora.

 

Alfredo J. Gonçalves, cs, RS, 14/01/2026

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