OS NOVOS BEZERROS DE OURO
A expressão bíblica remete ao Livro do Êxodo e ao “bezerro de ouro”. Este foi construído pelos hebreus na travessia do deserto, após a libertação da escravidão do Egito e a caminho da Terra Prometida. Tratava-se de um símbolo de idolatria que pretendia substituir a fé e a confiança em Ihaweh, devido à demora de Moisés em descer do encontro com o Senhor na montanha sagrada.
Verificamos hoje, no Brasil, a emergência de novos “bezerros de ouro”, que não são bezerros e tampouco são feitos de ouro. De maneira mais sutil, subreptícia e aparentemente legítima, em lugar de animais, usam-se figuras da tradição cristã. Tomemos quatro exemplos: cópia do Cristo Redentor, maior que a estátua original do Rio de Janeiro, construída no município de Encantado-RS; cópia de N. Sra. de Fátima na região do Crato-CE, com cerca de 50 metros de altura; santuário de São Miguel Arcanjo, projetado pelo município do mesmo nome, no oeste do Paraná; sino Vox Patris, no Santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade-GO, com 4 metros de altura e 4 metros e meio de diâmetro, pesando 55 toneladas, tendo sido encomendado na Polônia.
Nos quatro casos, faz-se necessário distinguir duas coisas bem diferentes: de um lado, constata-se a fé autêntica da população que, abandonada e sedenta, busca sinais da presença de Deus na história pessoal e da humanidade; de outro lado, suspeita-se da manipulação e instrumentalização dessa mesma fé por parte de religiosos e/ou políticos inescrupulosos, com a finalidade de atrair os fiéis. Não raro, do ponto de vista religioso, o objetivo oculto consiste em contar, não tanto com uma pastoral de processo, orgânica e de conjunto, mas com uma pastoral de eventos, com massas espetaculares e, consequentemente, com maior doação de ofertas e coletas. Do ponto de vista político, trata-se de incrementar o turismo religioso, numa concorrência nem sempre declarada quer com municipalidades vizinhas, quer com parlamentares opositores.
Convém ter presente que, por trás desses colossais monumentos, encontram-se em geral algum vereador, deputado ou prefeito, os quais procuram nutrir e manter a própria carreira política. Tais interesses de ordem política por vezes se fundem ou confundem com outros interesses de ordem religiosa e personalista. Interesses que, vale insistir, frequentemente usam e abusam da vulnerabilidade, da fé e da generosidade dos fiéis. Estes últimos, como se sabe, contam-se às dezenas e centenas de milhares, seja nas romarias, celebrações e procissões, seja nas campanhas de arrecadação. Desnessário acrescentar que nesses espaços de peregrinação prevalecem eventos de grande visibilidade – fogos de artifício que sobem, explodem e brilham; mas logo se apagam, descem e se convertem em cinzas.
Conclui-se que o alimento e a continuidade da fé ficam prejudicados. É normal que as festas, aglomerações e sucessos eventuais, sejam seguidos por uma realidade de penúria e fracasso. Igualmente prejudicadas são as comunidades, paróquias e dioceses de origem dos fiéis. Não podem contar com eles regularmente na prática da vivência eclesial, nem com “a moeda da viúva” para levar adiante a pastoral do processo. Mais do que criar comunidades sinodais, os santuários tendem a uma oscilação entre a euforia frenética e entusiasmada, por uma parte e, por outra, o cotidiano destituído de sentido, onde são comuns os embates e tragédias.
Também é verdade que, em não poucos exemplos, o santuário se integra com o dia-a-dia da vida eclesial local. Neste caso, um e outra, em lugar de se excluírem e disputar os fiéis, se reforçam, se interpelam e se complementam reciprocamente. A dicotomia é superada em favor de uma sinodalidade efetiva e orgânica. O santuário pode servir como referência para fortalecer a fé e a esperança vivida localmente. Aqui, a união e integração se juntam para manter uma experiência religiosa que, sem deixar de ter os pés firmes no solo e na realidade singular, tem igualmente asas para uma visão mais ampla e plural.
Alfredo J. Gonçalves, Montevidéu, 19/11/2025

